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“Olá mundo. Ainda estamos vivos”, escrevia Bana Alabed, em Setembro, na cidade de Alepo, na Síria. Na altura, tinha sete anos. As mensagens, publicadas pela mãe no Twitter, eram lidas por todo o mundo: “Bombas, bombas, bombas… Não sabemos se vamos sobreviver”, era uma, de entre muitas, a descrever o inferno que se vivia na cidade.

Hoje, aos oito anos, depois de escapar aos horrores da guerra, Bana, foi considerada das pessoas com mais influência na Internet pela revista Time. A escolha anual baseia-se na popularidade das pessoas nas redes sociais e na capacidade de gerarem manchetes de notícias. “Quando uma menina de sete anos escreve no Twitter que tem medo de morrer num bombardeamento, o mundo repara”, justifica a Time, no texto de apresentação dos vencedores.

Entre os outros 24 nomes mencionados pela revista está a escritora da série Harry Potter, J.K. Rowling, e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em comum, partilham a atenção que recebem online, nomeadamente no Twitter. Trump, consciente do seu sucesso nas redes sociais, terá mesmo dito numa acção de campanha em Novembro de 2015, que alguns o consideravam “o Hemingway do Twitter”. É o lider mundial mais seguido nesta plataforma. 

Rowling, de resto, responde frequentemente a Trump. Depois de este utilizar o Twitter para criticar o presidente da câmara de Londres por pedir à população para manter a calma após o ataque de dia 3 de Junho, Rowling escreveu: “Chama-se liderança, Donald. Os terroristas estavam mortos oito minutos depois de a polícia receber a chamada. Se quisermos um alarmista pomposo, telefonamos”. A publicação foi destacada pela Time por receber o dobro dos likes da publicação original do líder norte-americano. 

A lista da revista é diversificada. Inclui Matt Furie, o criador de Pepe, o Sapo (um personagem de uma tira de banda desenha online que, contra a vontade do criador, se tornou num símbolo das imagens difundidas online por apoiantes da extrema-direita nos Estados Unidos); a blogger Cassey Ho, conhecida pelos seus vídeos de exercício e receitas saudáveis no YouTube, as cantoras Katy Perry e Rihanna (cujas mensagens no serviço de mensagens Snapchat têm sido tema de notícias em alguns jornais online), e a socialite Kim Kardashian (que foi assaltada em Paris com base em informação partilhada pela própria nas redes sociais).

Porém, Bana (com as suas mensagens de ajuda e esperança) é a única criança a ocupar um lugar no pódio.

A página do Twitter – @AlabedBana – tem mais de 365 mil seguidores que a conheceram, o ano passado, como a “menina de Alepo”. Com a ajuda da mãe, Fatemah Alabed – uma professora de Inglês que gere a conta da filha no Twitter – , Bana publicou fotografias, mensagens de esperança e vídeos da vida no meio da guerra. “Esta é a casa da minha amiga depois das bombas. Foi morta.Tenho muitas saudades dela”, lê-se numa das mensagens que data de Setembro. “Quero ser uma professora, mas esta guerra está a arruinar o meu sonho. Parem o bombardeamento. Deixem-me aprender inglês e matemática”, era outra.

A esperança da mãe, que começou a utilizar a sua ligação irregular à Internet para publicar mensagens dos filhos era chamar a atenção do mundo. Apesar das críticas e de haver quem não acreditasse na existência de ligação de Internet na zona, a mãe não parou.

“Há Internet no leste de Alepo. Há energia solar no le3ste de Alepo. Há a Banna, no leste de Alepo, que está a sofrer e a escrever no Twitter. Boa noite”, disse Fatemah Alabed, num tweet assinado por si (para o diferenciar dos da filha), no início de Dezembro. Dias mais tarde, a família foi levada para a Turquia onde vivem actualmente como refugiados.

A página @AlabedBana teve muito impacto e originou centenas de notícias sobre os horrores da guerra civil na Siria, numa altura em que poucos jornalistas tinham acesso à região. Alguns tweets foram mesmo republicados por J.K. Rowling, que enviou a Bana uma edição electrónica de Harry Potter. Até o Presidente sírio, Bashar al-Assad, falou da conta de Twitter: tentando desacreditá-la por ser de “terroristas ou seus apoiantes”, mas era tarde de mais. Bana tinha-se tornado a cara de milhares de crianças na zona.

No Outono, vai publicar um livro de memórias com o apoio da editora Simon & Schuster. Porém, meses depois de conseguir escapar ao inferno na Síria, a conta de Twitter continua a ser a palco de comunicação principal para difundir mensagens de esperança. “Caro mundo, podemos parar de nos matar uns aos outros e, em vez disso, amarmo-nos? Sim, podemos”, escreveu a 24 de Maio. As mensagens continuam a ser lidas e partilhadas por milhares.

Autor: Publico.pt – Tecnologia




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