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Violação do dever de lealdade, abuso de poder, enriquecimento injustificado e mau uso de activos da empresa. Estas são as quatro principais acusações que a administração da Alphabet – sociedade que controla o Google – enfrenta em duas queixas judiciais que deram entrada num tribunal de São Francisco, EUA.


Trabalhadores contestaram tratamento dado a Andy Rubin num protesto global em Novembro de 2018
Stephen Lam/Reuters

Um dos queixosos é um accionista, James Martin, que acusa a administração de encobrir o assédio sexual no Google, de proteger executivos e autorizar indemnizações milionárias a gestores despedidos ou que deixaram a empresa depois de terem sido envolvidos em suspeitas de má conduta. Por exemplo, o Google deu 90 milhões de dólares a Andy Rubin, fundador e líder do sistema Android, que deixou a empresa em 2014. Na altura, a saída foi apresentada como amigável, mas em 2018 foi noticiado que tinha sido pressionado a sair por um dos criadores do Google, Larry Page, por ter coagido uma funcionária a envolver-se sexualmente com ele, num quarto de hotel.

Apesar destas suspeitas, que foram objecto de investigação interna, a empresa aceitou pagar-lhe até 2,5 milhões de euros mensais, durante quatro anos, permitindo ainda que a saída dele fosse apresentada de uma forma positiva, ao dizer-se que ele iria dedicar-se a projectos filantrópicos e ao desenvolvimento de startups. Rubin negou sempre as acusações.

Outro caso envolve Amit Singhal, antigo vice-presidente e responsável pela equipa do motor de pesquisa Google durante 15 anos. Singhal deixou a empresa em 2016, mas só mais tarde veio a saber-se que tinha sido acusado de assédio sexual. Também neste caso houve um inquérito interno que concluiu que as alegações contra ele eram “credíveis”. No ano seguinte, viria a ser contratado como responsável de engenharia na Uber. Porém, foi despedido ao fim de muito pouco tempo, por ter ocultado à Uber que tinha sido acusado de má conduta sexual no Google. Singhal também refutou sempre as acusações.

James Martin, que agora processa a administração da Alphabet, é accionista desde 2009. Acusa a equipa de gestão de desbaratar activos da empresa ao pagar indemnizações avultadas a executivos despedidos por má conduta. Dessa forma, ”permitiu que as condutas ilegais proliferassem e continuassem”, lê-se numa das queixas entregues ao tribunal. “Como tal, os membros do conselho de administração da Alphabet sabiam que estavam a permitir o assédio sexual e a discriminação.”


Depois dos trabalhadores, agora são os accionistas que censuram a política de dois pesos e duas medidas
Jeenah Moon/Reuters

O actual presidente executivo do Google, Sundar Pichai, revelou em Outubro de 2018 que a empresa tinha despedido 48 funcionários por suspeitas de assédio. Porém, a queixa entregue no tribunal, acompanhada por numerosa documentação interna, sustenta que a equipa de gestão empregou dois pesos e duas medidas. “Se és homem e um executivo de topo responsável por receitas de milhões de dólares, o Google permite-te o assédio sexual. E se és apanhado, o Google cobre tudo com silêncio, deixa-te ir embora e ainda te paga milhões de dólares. Mas se és um simples empregado e fores acusado de assédio sexual e discriminação, então és despedido, sem mais”, lê-se no documento, relevado pela imprensa norte-americana na quinta-feira à noite.

Os advogados de James Martin exigem por isso que a empresa melhore as suas práticas e que os gestores sejam responsabilizados legal e financeiramente pelos pagamentos milionários, que classificam como enriquecimento injustificado dos gestores despedidos por assédio e discriminação.

Pouco depois do processo deste accionista, deu entrada no tribunal de San Matteo uma segunda queixa, em nome dois fundos de pensões, igualmente accionistas, que acusam toda a equipa de gestão da Alphabet de encobrir o assédio sexual. 

A existência de má conduta no Google – cujo lema inicial era “Don’t be evil” (Não sejas maldoso) até à reestruturação de 2015, que levou à criação da sociedade Alphabet, adoptando então o lema “Do the right thing” (Faz o que está certo) – ganhou notoriedade pública em 2018. Em Novembro, milhares de trabalhadores saíram dos escritórios que a empresa tem em todo o mundo para mostrarem descontentamento em relação à forma como a empresa lidou com as queixas de assédio e discriminação. Dias antes, o jornal The New York Times tinha revelado o pacote milionário que a empresa deu a Rubin para este sair da empresa.


Autor: PÚBLICO – Tecnologia




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