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Sentemo-nos à mesa e façamos um exercício para explicar como funciona a filtragem de conteúdos na Internet através de um algoritmo e quais as suas vantagens e problemas. Preferia nunca mais apreciar o seu prato favorito ou ser obrigado a comê-lo a todas as refeições para o resto da vida? Se optasse por uma existência à base de cozido à portuguesa, talvez fosse feliz durante um tempo, mas perderia a oportunidade de descobrir novas iguarias. “O que é que vai ser? O costume.” Nas redes e nos motores de busca, vivemos num regime alimentar escolhido por terceiros com base naquilo que estes julgam ser os nossos gostos, a partir das nossas escolhas passadas. O efeito é igualmente nocivo. Há um empobrecimento do menu e a eliminação de alternativas.

O nome desta dieta é “o efeito bolha”. Eli Pariser, o actual CEO do site Upworthy, um projecto que tenta unir conteúdo viral e a promoção de causas sociais, foi umas das primeiras pessoas a escrever extensivamente sobre o assunto. Em The Filter Bubble: What the Internet is Hiding from You, o empresário e activista denuncia o que entende ser o efeito perverso da excessiva personalização dos motores de busca e das redes sociais: a segregação cultural e informativa, o empobrecimento do debate público.

Pariser dava como exemplo os diferentes resultados de uma pesquisa sobre o Egipto realizada em 2011, ano da queda de Hosni Mubarak. Num primeiro exercício realizado por um utilizador habituado a consumir informação, a crise política no Cairo surgia naturalmente no primeiro lugar da pesquisa. No segundo caso, de outro utilizador que dedicava menos atenção às notícias, o Google dava prioridade a sites de venda de viagens turísticas para o Egipto. Esta diferença é explicada pela forma como o motor de busca traça o perfil de cada utilizador a partir de 57 tipos de informação, desde a frequência de determinadas pesquisas e o conjunto de sites habitualmente visitados até ao local físico de acesso e o tipo de computador ou telemóvel utilizado. Para cada perfil, uma lista de resultados feita à medida. O que um utilizador encontra no Google não é necessariamente aquilo que é visto pelo vizinho.

A posição praticamente monopolista do Google no panorama dos motores de busca levanta a questão dos efeitos do seu algoritmo na formação da opinião pública mundial. A maioria dos utilizadores acede apenas aos primeiros resultados de uma pesquisa, e a presença nesse top depende não só do perfil de quem procura a informação como também da página apresentada — o tamanho dos artigos, a data de publicação e, recentemente, o facto de o site estar ou não tecnicamente preparado para ser visualizado correctamente num smartphone ou num tablet. As regras do jogo não são claras. As variáveis levadas em conta e a sua ponderação não são públicas. E a fórmula está em constante alteração — o algoritmo será afinado cerca de 600 vezes por ano.

Eleger um Presidente?
Poderá uma dessas mudanças no algoritmo ter influência numa campanha eleitoral? Em 2015, os investigadores de Psicologia Robert Epstein e Ronald E. Robertson estudaram o impacto do Google no comportamento do eleitorado norte-americano e indiano. A pesquisa concluiu que o resultado de uma eleição poderia oscilar até 25% graças à informação apresentada pelo motor de busca, e que as intenções de voto dos indecisos poderiam alterar-se em até 80% dos casos. Em causa não estava a veracidade ou a qualidade dos resultados das buscas, mas sim a ordem pela qual a Google lista os artigos.    

Num artigo publicado posteriormente no Politico, Epstein alerta que “o próximo Presidente norte-americano poderá ser conduzido ao poder não por tempos de antena televisivos ou por discursos, mas pelas decisões secretas da Google”. O investigador, que tem um historial de críticas em relação à empresa, apontava relações privilegiadas da Google com o Partido Democrata e o facto de a candidata Hillary Clinton ter contratado um alto quadro da empresa, Stephanie Hannon, para a sua campanha.

Em reacção ao estudo, a Google desmente a ideia de manipulação e afirma que “fornecer resultados relevantes” é o único objectivo da empresa. Um outro investigador, Ryan Kennedy, da Universidade de Houston, dizia ao Huffington Post que uma tentativa de manipulação de resultados eleitorais através do Google “seria rapidamente identificada pelas pessoas, sobretudo se forem politicamente informadas”, desvalorizando as conclusões de Epstein e Robertson.





Autor: Publico.pt – Tecnologia




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