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Ao celebrarmos o Dia Mundial do Cinema (5 de novembro), devemos preservar a sua relevância histórica e artística também pela consciência das necessidades educativas presentes e futuras.

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas e os mais recentes indicadores da OCDE reforçam a necessidade de políticas educativas que fomentem o desenvolvimento de competências para a vida. Necessariamente, estas emergem de um contacto profundo e significativo com a realidade. No entanto, deparamo-nos, hoje e nas gerações mais jovens, com um recorrente alheamento e distanciamento face ao real. Perante isso, o Cinema pode ser um contributo importante para potenciar codificações e descodificações significativas do(s) nosso(s) mundo(s).

O digital e a Internet, referentes incontornáveis para os modos como os jovens comunicam e se informam sobre a realidade, fomentaram novas formas de leitura, pensamento e memória que, segundo Nicholas Carr (autor de The Shallows), conduziram a uma superficialização do seu enraizamento cognitivo, emocional e empírico no real. Contribuíram para um excesso de informação que nutre e coincide com a incapacidade reflexiva e crítica no acompanhamento do ritmo da atualidade. Virtualizaram e homogeneizaram não apenas os significados globais, como também os significados pessoais, cada vez mais dependentes dos perfis, interações e interesses fomentados, em ciclos convergentes, pelas redes sociais.

Nesse sentido, urgem estratégias e oportunidades em contextos que lhes permitam uma aproximação empírica, variada e profunda a matérias intrínsecas à sua existência e ao seu contexto. Uma via relevante é a expressão e a experiência cinematográficas. Contrariando a sobrecarga informativa e a insensibilização crítica, o Cinema pode proporcionar um espaço de pausa e esvaziamento, aberto para o encontro e o diálogo, atentos e empáticos, com o “outro”, o estranho, o distante. Permite exceder a mera representação do real, estabelecendo “provocações” que, pela densidade e intensidade, trabalham a capacidade de gerar perguntas e a auto-suficiência na procura de respostas sobre mundos interiores e exteriores. Possibilita a descoberta e produção de sentidos e significados que direcionam o conhecimento, incorporando a pertinência da subjetividade, da emoção e do simbólico. Torna-se, assim, um veículo privilegiado para o acesso a perspetivas sobre a realidade que, a partir da rigidez estrutural de uma obra, se abrem para diferentes (e divergentes) interpretações e aprendizagens. Pelo abrandamento da voracidade do quotidiano, proporciona um confronto do recetor consigo mesmo e com a obra, o que inquieta, questiona e, por isso, enriquece.

Ao celebrarmos o Dia Mundial do Cinema devemos preservar a sua relevância histórica e artística também pela consciência das necessidades educativas presentes e futuras. O Cinema pode e deve ocupar um espaço relevante nas propostas educativas fomentadas dentro e fora das escolas. Algo que já não constitui apenas um objetivo futuro, mas uma realidade presente, patente em vários países e diversos projetos governamentais, escolares, artísticos e científicos, bem como visível no crescente número (e dimensão) dos serviços educativos de festivais de cinema nacionais e internacionais.

Do Cinema, como espaço pedagógico para a ampliação de horizontes, advirá também o potenciamento de novos públicos, informados, motivados e sustentados por competências de literacia fílmica e cultural. Por isso, este caminho deve ser mantido, reforçado e alargado, dando continuidade ao Cinema como oportunidade para amplificar a realidade e incentivar à participação, inclusão e conhecimento das novas e das futuras gerações.

Pedro Alves, docente da Escola das Artes da Católica no Porto


Autor: PÚBLICO – Educação




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