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Um jovem instala-se no sótão da casa de uma conhecida apresentadora de televisão. E ela instala-se na cama (e na vida) dele. “Um retrato duro de sujeição e prazer – e de todas as ambiguidades que comportam as relações amorosas”, resume-se na contracapa de Estocolmo, escrito por Sérgio Godinho e editado pela Quetzal.

“Não tem nada que ver com a cidade”, explicou o autor na apresentação do livro na Biblioteca Municipal da Lourinhã, divertido com a ambiguidade do título escolhido. É da “síndrome de Estocolmo” que se trata (estado psicológico de alguém que, depois de submetido a sequestro, cria laços afectivos com o agressor).

O compositor falou dos diferentes tempos e ritmos de escrita em se tratando de canções ou de romances, revelando que “a música antecede sempre as palavras” e que nos romances há que “corrigir, tirando”.


Durante o Livros a Oeste, a apresentação das obras faz-se na biblioteca municipal
José Cruz/Cortesia do Livros a Oeste

Diz que apanha “a fala da rua, mas nunca de forma naturalista”. Assume que recorre “a expressões mesmo coloquiais” e lembra que “há frases banais das quais se extrai um sentido mais geral, seja ‘um brilhozinho nos olhos’ ou ‘hoje soube-me a pouco’”. Defende que, sendo “frases batidas, podem ser usadas em termos simbólicos para uma situação mais vasta e em metáforas de nível superior”.

Sérgio Godinho disse ainda que os escritores, ao terminarem um livro, sentem-se como “pais que ficam órfãos”.

De outras histórias haveria de falar, no painel da noite, em companhia da actriz Ana Saragoça e do jornalista Mário Augusto, moderados pelo organizador do Livros a Oeste, João Morales.

No Auditório do Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira, o tema Palavra Dita e Palavra Escrita levou o moderador a lembrar a canção 2.º andar direito. “É muito visual. Ouvimo-la e estamos a entrar naquele quarto e a ver a vida daquele casal.”


Jornalista João Morales, organizador do festival Livros a Oeste, na Lourinhã
José Cruz/Cortesia do Livros a Oeste

Sérgio Godinho explica que é “uma canção longa, de seis minutos, com um casal jovem, ele de 20 anos, ela de 18”. E “cinco dias sem trocarem palavra”, isso não disse, mas basta escutá-la.

Contou que 2.º andar direito “foi usada numa escola para um exercício de guionismo, justamente por se tratar de uma história muito cinematográfica”. E acabaria mesmo por ser transposta para cinema: “Um dos alunos fez um filme a partir dali, em que a apresentadora de televisão Teresa Cruz era a personagem feminina”, contou.

A escrita é um albergue espanhol

De histórias diferentes falou a divertida actriz, tradutora e escritora Ana Saragoça, autora de Todos os Dias São Meus (Editorial Planeta). Antes de desvendar o que se passa no livro, revelou o que se passa na sua vida: “A minha primeira opção foi ser actriz e as outras opções foram por necessidade económica. Quando não tenho trabalho como actriz, traduzo. Quando não tenho traduções, escrevo”, diz. E sublinha: “Não há conhecimento inútil.” Daí o facto de “transportar” as suas valências de uns campos profissionais para outros. Seja na dobragem de desenhos animados, na legendagem de filmes ou na tradução literária.


Actriz e escritora Ana Saragoça falou do seu livro Todos os Dias São Meus
José Cruz/Cortesia do Livros a Oeste

Do que retira de todas estas experiências, leva para a ficção “a prosódia, o ritmo, a oralidade, o que soa melhor”. Para a autora do monólogo A Mãe da Noiva, “a escrita é aquele albergue espanhol onde cabe toda a nossa experiência de vida”. Dito isto, dirige-se à plateia, afirmando, com graça e tom ameaçador: “Vocês são todos material…”

Um crime no elevador de um prédio leva a que os moradores sejam entrevistados por um polícia, eis uma forma de resumir Todos os Dias São Meus. “O prédio funciona como cápsula de uma grande cidade, em que há pessoas de várias idades, classes e origens: porteira, imigrantes de Leste, um professor, um engenheiro”, enuncia. Para concluir que a história é “a transposição da linguagem oral de cada personagem a falar na primeira pessoa”.

Ana Saragoça disse ainda que não pretendia escrever um policial, porque é má leitora desse género literário: “Nunca consigo descobrir o assassino. Se não for o mordomo, fico baralhada.” Ecoam gargalhadas no auditório.

A génese de uma boa história é uma boa escrita

Mário Augusto, jornalista especializado em cinema, fez saber que “desde há 30, 40 anos, se começou a escrever com muito mais cinema nas palavras”. Foi quando “o audiovisual passou a fazer parte da vida das pessoas”.


Segundo o jornalista Mário Augusto, “o cinema apoderou-se da criatividade dos autores”
José Cruz/Cortesia do Livros a Oeste

Referiu também a nossa resistência “à adaptação de grandes clássicos”. Parece que ficam sempre aquém, porque eram “escritos com uma tal densidade… numa altura em que não havia hipóteses de se juntar imagens”.

Com o tempo, disse, “o cinema apoderou-se da criatividade dos autores”. Mas, recuando no calendário, à época “em que não havia cinema e, pensando em Júlio Verne”, não tem dúvidas: “Vemos um guião, vemos cinema ali.” O mesmo para “o nosso Eça [de Queirós]”. Segundo Mário Augusto, ali, “na maneira como ele escrevia e desenvolvia a narrativa, vemos uma série de televisão”.

Invoca ainda Jean-Luc Godard, para dizer que “um filme não é mais do que uma história com princípio, meio e fim”. E completa: “Se bem que ele acrescentava, ‘não necessariamente por esta ordem’.”

Houve tempo ainda para concluir que “há pessoas que escrevem muito bons diálogos e que não são boas a descrever cenários ou contextos”. Mas está certo de que “a génese de uma boa história é sempre uma boa escrita”.


Palavra Escrita, Palavra Dita foi o tema do painel no Auditório Dr. Afonso Rodrigues Pereira
José Cruz/Cortesia do Livros a Oeste

Revela que “hoje é frequente autores que ainda estão a pensar numa ideia já terem os seus direitos vendidos para cinema”. E conclui: “Para eles, é perfeitamente normal. Não vão ficar na história nem ganhar o Nobel. Ganham é milhões.”

No final, a plateia teve direito a um vídeo montado pelo jornalista com uma sequência de excertos de filmes emblemáticos e que “todos deveriam ver”. Também deu a conhecer algumas características e tiques de actores famosos que entrevistou ao longo de 30 anos: Meryl Streep e Robert de Niro foram alguns exemplos.

O Livros a Oeste prossegue até sábado, sob o mote Palavras Que nos Unem. Sexta-feira à noite, o auditório recebe Carlos Fiolhais, Filipe Homem Fonseca, Regina Guimarães e Ana Cristina Silva, num painel denominado O Binómio de Newton Apaixonou-se — As Letras da Ciência e a Ciência das Letras. 

Muita história haverá para contar. Basta querer.


Autor: PÚBLICO – Educação




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