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Há muito poucos anos atrás, a família das línguas e culturas eslavas, uma das mais antigas da Europa, era a menos conhecida no continente. Os países eslavos da Península Balcânica tinham o “privilégio” de ser os mais exóticos. Por exemplo, para muitos portugueses, a Bulgária era apenas o país que atravessavam a caminho da Grécia.


A Rússia era, e ainda é, o país tradicionalmente mais conhecido em Portugal. No entanto, há pouco tempo, uma senhora idosa de Lisboa, minha amiga, perguntou-me, inquieta: “Os russos já chegaram…?”

O muro de Berlim, símbolo da separação dos países entre o Bloco de Leste e os restantes países da Europa, foi destruído em 1989. Mas continuou a existir o muro dos estereótipos e dos preconceitos.

Na maioria das vezes, os países eslavos são encarados em conjunto, destacando-se as semelhanças sem se considerar as diferenças. Se o protoeslavo constitui a origem das nossas línguas nacionais e permite uma certa compreensão mútua, baseada sobretudo nas semelhanças do vocabulário, desenvolvimentos históricos diferentes estão na origem de variações culturais e sociais bem claras. Por exemplo: a cristianização pelo Patriarcado de Constantinopla dos povos da Bulgária, Rússia, Sérvia e Macedónia; a escolha do rito latino por parte da Eslovénia, Croácia e Polónia; a adoção do alfabeto glagolítico e, mais tarde, do cirílico, por alguns países eslavos: Bulgária, Sérvia, Croácia e Rússia; o uso do alfabeto latino por outros países: Eslovénia, Polónia, República Checa e Eslováquia; a integração no Império Otomano: Bulgária, Macedónia e Sérvia ou no Império Austro-Húngaro: Eslovénia, Croácia e República Checa; a instauração de um regime socialista de tipo estalinista na Bulgária; o desenvolvimento de uma forma de não-alinhamento por parte dos países da ex-Jugoslávia.

Hoje em dia, no seio da União Europeia, estamos a aprender a viver juntos na diferença. Cada um dos países eslavos membros da UE trouxe o seu passado para o presente da Europa.

Porém, o património cultural dos países eslavos pertenceu sempre à Europa.

É neste espírito que a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa dá abrigo a vários cursos de línguas e culturas eslavas. O Centro de Estudos Eslavos, representado pelo seu Diretor, o Professor Doutor Gueorgui Hristovsky, propõe entre seis e oito níveis de ensino de línguas eslavas e outras cadeiras como Literaturas Eslavas e Introdução à Linguística Eslava. O Centro organiza aulas abertas, conferências, leituras de poesia, jornadas de linguística eslava, e ainda uma festa de final de ano.

Um dos eventos que vai ter lugar pela segunda vez é a celebração do Dia da educação e da cultura búlgaras e da escrita eslava.

Durante os séculos IX-X, a escrita eslava e as traduções dos livros sagrados do grego litúrgico para o eslavo da região de Salónica lançaram as bases da cristianização dos países da Europa do Sudeste e mais tarde da Rússia. Nasceu a “Eslávia Ortodoxa”.

O primeiro alfabeto eslavo, o glagolítico, foi criado na segunda metade do século IX pelos dois irmãos Cirilo e Metódio que ocupavam altas funções na corte bizantina. Foi na Grande Morávia que o novo alfabeto e os primeiros livros sagrados em eslavónico, foram divulgados com o objetivo de cristianizar o povo pela igreja de Constantinopla.

Em 869, na igreja “Santa Maria Majore”, em Roma, o Papa Adriano II efeituou a bênção solene do alfabeto eslavo (o glagolítico) e dos textos litúrgicos, reconhecendo assim o eslavónico eclesiástico como a terceira língua europeia em que se podia louvar a Deus.

Em 886, o alfabeto glagolítico e os livros sagrados foram divulgados no território do Primeiro Reino Búlgaro, pelos discípulos dos santos Cirilo e Metódio. Progressivamente, no decorrer dos trabalhos de tradução e de divulgação da nova escrita, foi criado um novo alfabeto, o cirílico (em honra do santo Cirilo), mais acessível e mais próximo dos alfabetos existentes na Europa.

A missão dos dois santos estudiosos na Grande Morávia, mesmo sem ter atingido os objetivos de Constantinopla, marca o início das literaturas checa e eslovaca.

Na Bulgária, graças aos livros sagrados, escritos em búlgaro antigo (eslavónico eclesiástico), a nova religião torna-se acessível ao povo. Numa outra perspetiva, a escrita eslava contribui para a independência da igreja búlgara em relação à igreja bizantina.

O alfabeto cirílico e os livros litúrgicos traduzidos na Bulgária estimulam o processo de cristianização da Sérvia e da Rússia e o desenvolvimento das respetivas culturas nacionais.

Celebrar o Dia dos santos Cirilo e Metódio representa um reconhecimento do contributo da sua obra para a diversidade cultural da Europa. A FLUL convida todos para esta celebração amanhã, dia 26 de maio, pelas 18h, na sala 5.2.

Centro de Estudos Eslavos




Autor: Publico.pt – Educação




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