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Forza Horizon 4 é um jogo que mostra uma produtora Playground Games mais confiante do que nunca; é um título capaz de fazer os jogadores perderem a noção do tempo enquanto renovam constantemente os votos do casamento com os motores virtuais. Quando no final de 2018 se fizerem contas aos grandes jogos que chegaram ao mercado, este é um dos nomes que vai aparecer em várias listas.

Desde cedo é proibida a palavra “aborrecimento”. Depois de o excelente Forza Horizon 3 nos ter saciado a fome de corridas automóveis transportando-nos até à Austrália, agora é a vez de percorrermos as centenas de estradas dispostas como um novelo pela Grã-Bretanha – Inglaterra, Escócia e Gales abrangidos num mapa disponível à curiosidade e à exploração de cada um. Pode parecer um mapa cinzento na teoria, mas na prática há trechos alocados a diferentes tipos de terrenos e cenários que alimentam a diversidade e o factor novidade durante dezenas e dezenas de horas.

Isto é apresentando de forma indissociável da grande novidade: as estações do ano. Ou seja, a Playground Games quer novidades cíclicas para sustentar a longevidade. O Verão, Outono, Inverno e Primavera, além de mudarem o aspecto do mapa, afectam também a jogabilidade e, de forma muito inteligente, propõem aos jogadores novos eventos, fazendo-os regressar uma e outra vez, quantas forem necessárias para que não deixem de jogar Forza Horizon 4 após alguns dias ou semanas.

No que pode ser considerado o “prólogo” de Forza Horizon 4, as estações mudam com uma cadência relativamente rápida, com os jogadores a terem que realizar algumas actividades para progredirem. Porém, deixem esta fase introdutória para trás e a mudança da estação é sincronizada pelos servidores do jogo, mudando a cada sete dias para todos os jogadores. Na prática, no momento em que este texto é escrito, todos os pilotos fora do epílogo estão a jogar no Outono – e assim continuarão nos próximos cinco dias.

Isto faz com que, independentemente do carro que estejam a conduzir – e há 450 no jogo – ou do estilo de competição em que estejam a participar – Estrada, Drag, Cross Country, Rally – a mudança de estação introduz sempre uma curva de aprendizagem. Sente-se, mesmo depois de ter acumulado mais de quatro dezenas de horas, que Forza Horizon 4 é uma proposta em constante mutação.

Com inúmeros parâmetros que podem ser ajustados, estamos perante uma obra que divertirá qualquer jogador, independentemente da sua habilidade ao volante. Um jogo de condução não pode falhar na jogabilidade para se afirmar, teste que Forza Horizon 4 passa com distinção: mais centradas na vertente arcada, todas as competições são um hino à grandiosidade, ou seja, a jogabilidade é responsiva e afinada, mas definida também pela diversão.

Todos os traçados das provas em que participei foram pensadas para o queixo caído do jogador, com saltos que desafiam a lógica, trechos nas praias, junto aos penhascos da Escócia, pela floresta húmida que parece ter servido como pano de fundo às gravações de Dark, a excelente série da Netflix. Forza Horizon 4 vive de e para a paixão automóvel, levando-a a sério e construindo um espectáculo cénico sobre estas fundições.

O departamento técnico da obra é apresentando de forma quase imaculada, mas isso é acima de tudo a cinematografia a funcionar como um pêndulo da jogabilidade: o peso e os momentos do controlo sobre o carro em mais uma curva que depois de conquistada enche qualquer um de adrenalina; em mais uma passagem por um rio ou por um banco de neve; e mais uma prova terminada em primeiro lugar conquistado por centímetros.

Há tanto para fazer em Forza Horizon 4 que a produtora disponibiliza uma ferramenta, My Horizon Life, dedicada apenas e só a acompanhar a nossa vida no jogo. Os carros são o destaque, mas há casas para comprar (até o Castelo de Edimburgo), há afinamentos mecânicos e visuais, há provas especiais (que pecam por serem poucas) que nos colocam contra um avião, um comboio, um hovercraft e – por que não? – que chegam a recriar o universo de uma outra propriedade da Microsoft, Halo. Ou talvez queiram ter a vossa própria empresa de aluguer dos melhores supercarros? É possível. E que tal serem um duplo num filme? Sim, está aqui essa proposta numa série de eventos.

Sobre os veículos, cada um tem a sua própria árvores de melhorias que são desbloqueadas com o amealhar de skill points, recompensas pela vossa condução, seja cuidada ou a abrir caminho dentro e fora das estradas. Mais: as vossas prestações garantem dinheiro virtual para irem investindo em novos carros e outros itens, mas também “Influence Points”, que funcionam como Pontos de Experiência num Role Playing Game e permitem subir de nível. Além disso, cada modalidade tem a sua própria escalada de níveis – a cada nível conquistado há novas provas desbloqueadas, etc.

E se tudo isto não for suficiente para manter os jogadores investidos durante dezenas e dezenas de horas, sem grande surpresa Forza Horizon 4 aposta forte na componente online. Além de podermos partilhar muitas das competições cooperativamente ou em PvP (Jogador contra Jogador), graças à ligação da obra aos servidores em sessões que suportam até 72 jogadores, há também aventuras online ou os eventos #Forzathon Live.

Depois de ter experimentado na primeira pessoa todos estes modos, será curioso perceber como é que os eventos #Forzathon Live vão evoluir com o passar do tempo. Na sua essência, um grupo de jogadores cooperam para atingir um objectivo comum – como por exemplo atingir uma velocidade ou uma pontuação combinada entre todos. Isto nutre a cooperação e a coordenação, claro, mas fica a questão de como evoluirá se mais e diferentes objectivos forem adicionados.

Enquanto a jogabilidade apurada pode ser encarada como o actual da obra e toda a componente online como o que ditará o seu futuro, os dois pontos são alimentados pelo excelente departamento gráfico. Desde a modelagem dos carros – exterior e interior – até aos cenários que criam uma atmosfera inesquecível, seja no micro das texturas usadas nas árvores, nas casas e nas pedras, ou no quadro geral que é a vastidão até perder de vista, tudo parece ter sido trabalhado e retrabalhado até satisfazer o excelso design.

Frenético e detalhado, Forza Horizon 4 pode ser jogado em dois modos: um que aumenta a fidelidade gráfica e outro que aposta na performance. Mesmo no modo que aposta os trunfos no grafismo, jogado numa Xbox One X ligada a uma televisão 4K, nunca senti grandes soluços técnicos, nem mesmo durante a minha estadia em competições multijogador online. O jogo da Playground Games é um portento técnico.

No campo da sonoplastia, o trabalho é também francamente positivo. Não só temos os motores a roncar por estes cenários, como várias estações de rádio que podemos escolher – desde o rock à música clássica. Podia ser mais diversificada e a vocalização das personagens podia ser mais empenhada, mas nunca chega sequer a ser uma ameaça à qualidade geral da obra, ficando-se apenas pela classificação de pormenores aquém.

A verdade é que essa qualidade geral, horas e horas depois, continua a divertir, continua a fazer-me querer continuar a jogar na expectativa do que a próxima estação vai oferecer enquanto pelo caminho destruo mais um sinal, compro mais um carro que nunca terei na vida real ou recorro a uma longa sessão online. Forza Horizon 4 é uma obra que mostra confiança, sim, mas que mostra também muita inteligência e experiência. Na minha crítica, descrevi Forza Motorsport 7 como o “domar bestas mecânicas”. Bem, em Forza Horizon 4, preparem-se para domar bestas mecânicas com um sorriso de orelha a orelha.


Autor: PÚBLICO – Tecnologia




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