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Desde o momento em que acorda, Vanessa Alfaro tem milhares de pessoas a seguirem os seus passos. O ponto de encontro são as redes sociais – é lá que partilha as rotinas de exercício matinais (no ginásio, no parque, na praia), receitas de pequeno-almoço e outras tantas dicas para uma vida mais saudável. Pelo meio, aparecem recomendações de produtos, restaurantes a visitar e sugestões de roteiros para seguir durante o dia. Os momentos são registados em fotografias, com nomes de marcas visíveis, hashtags e opiniões a acompanhar. Vanessa, de 28 anos, é uma influenciadora digital a tempo inteiro.

“O mais difícil foi começar a cobrar dinheiro por aquilo que faço”, admite ao PÚBLICO. “Estranhava no início, mas agora reconheço que são coisas que me dão trabalho e que ajudam as marcas. Em vez de uma campanha na televisão, faço parte de uma estratégia de campanhas online.”


Vanessa Alfaro, 28 anos, dá dicas de exercício e alimentação
Instagram de Vanessa Alfaro

Tudo começou há cinco anos, quando decidiu partilhar o seu percurso para perder peso. “Sempre publiquei muito nas redes sociais, mas antes eram as visitas constantes aos restaurantes, as pizzas do almoço e os hambúrgueres do jantar. Quando mudei o ângulo, gerei muito mais interesse”, recorda Vanessa Alfaro. “Muitos não acreditavam que conseguisse perder os 20 quilos que tinha ganho na faculdade. Isso motivou-me e partilhei o processo todo nas redes sociais. As receitas, os exercícios, os resultados. Pouco a pouco, comecei a ter um grupo de pessoas que me seguiam, faziam perguntas e pediam conselhos.” 

Em 2016, deixou o trabalho como tradutora de alemão para se dedicar por completo ao projecto. Hoje, com cerca de 91 mil seguidores no Facebook e 129 mil no Instagram, recebe várias propostas de marcas como a L’Óreal, a Nivea e a Prozis (no sector da nutrição desportiva). É paga para falar dos produtos destas empresas e explicar como fazem parte do seu quotidiano.

A estratégia é semelhante à de Cláudia Vitorino Almeida, 42 anos, que tem um Instagram dedicado à moda e produtos de beleza, e de Fernando Marques, 34 anos, que usa as redes sociais para mostrar aos seus seguidores os pontos do globo por onde passa como comissário de bordo da TAP – e que servem de pano de fundo para os produtos que promove: uma mistura ecléctica de relógios, garrafas de licor, águas minerais e escovas de dentes feitas de bambu.


Fernando Marques, 34 anos, usa as viagens como pano de fundo para os produtos que promove

Para Fernando, uma só fotografia no Instagram pode chegar a valer 900 euros. Vanessa e Cláudia preferem não falar de valores.

Comprar influência

Os três são influenciadores digitais: pessoas seguidas por milhares, que são escolhidas por marcas para promoverem os seus produtos. Segundo dados da agência de marketing Mediakix, fazem parte de uma indústria que ultrapassa os mil milhões de dólares em termos globais.

“Sempre existiram influenciadores, mas as redes sociais permitem potenciar a comunicação a uma escala superior”, resume Sérgio Meireis, presidente executivo da Cheese Me, uma agência de marketing de influência em Portugal, criada há três anos para facilitar o contacto entre marcas nacionais e os influenciadores no Instagram. “São indivíduos que exercem uma influência acima da média. Que conseguem motivar comportamentos e tomadas de decisão.”


Do que come ao que faz no ginásio, Vanessa partilha todos os momentos nas redes sociais

Vanessa Alfaro acrescenta que é algo que está ao alcance de qualquer pessoa: “Todos podem fazer isto: criar uma marca pessoal e promovê-la nas redes sociais, porque todos temos coisas interessantes para partilhar”. Além da conta pessoal no Instagram pessoal, tem outra para os seus cães, Lucas e Mateus, que também promovem marcas de ração e de brinquedos para animais. “Mas atenção, é preciso dedicação e preparar conteúdo para publicar a cada momento. Muitas vezes, são mais de oito horas de trabalho.”

Tirar fotografias e publicá-las com boas hashtags não é o suficiente. “Até podemos ter as melhores fotos do mundo, mas temos de ser proactivos. Também é necessário ir a outras contas, comentar, deixar likes. Isso cria curiosidade”, diz por seu lado Cláudia Vitorino Almeida.

Licenciada em Economia, foi também o Instagram que a ajudou a fazer uma carreira online e a criar a marca Upper East Stylist, inspirada pelo seu fascínio por Nova Iorque e moda. “Estava saturada do mundo das contas e da economia, do ambiente no trabalho. Precisava de um escape.” Tirou uma pós-graduação em consultoria de moda, desistiu do emprego e fez um curso de estilista. “Mas foi só com o aparecimento do Instagram que percebi que tudo isto podia fazer parte do meu percurso de vida profissional.” Hoje tem perto de 40 mil seguidores.


O Instagram levou Cláudia a perceber que podia construir uma carreira das publicações que fazia na Internet

Pagar as contas

Embora Cláudia Almeida e Vanessa Alfaro consigam pagar as contas com o que publicam nas redes sociais, é difícil obter valores exactos sobre quanto se ganha com este tipo de trabalho em Portugal. 

Apenas Fernando Marques quis falar em números: “Foram 30 euros no início, e o mais alto até hoje foram 900 euros.” Desde 2016 que as propostas de trabalho lhe chegam pela Cheese Me. “Uma agência traz-nos mais marcas, mas em termos monetários os ganhos são menores. Sozinhos conseguimos negociar preços e normalmente é mais vantajoso”, admite.

Fora de Portugal, alguns influenciadores conseguem centenas de milhares de euros por publicação. Por norma, são celebridades que já reuniam um grande interesse junto das massas antes de chegarem ao Instagram. Cristiano Ronaldo, que tem mais de 138 milhões de seguidores no Instagram, recebe cerca de 750 mil dólares (650 mil euros) por cada campanha. Já Kylie Jenner, famosa pela sua participação em reality shows e por ter uma empresa de cosmética, é a pessoa mais bem paga do Instagram: chega a receber um milhão de dólares por cada publicação.

Algumas agências retiram o dinheiro da equação, optando por organizar trabalhos com influenciadores em troca de produtos ou serviços: estadias em hotéis, cremes gratuitos, roupa nova. É algo que Cláudia Vitorino Almeida critica: “Já recebi milhares de emails, de agências internacionais e de uma ou duas agências portuguesas, mas ainda não encontrei uma proposta de que gostasse. Geralmente, é para trabalhar com eles em troca de produtos. Não são os produtos que me pagam a luz de casa”.


Cláudia Vitorino Almeida, 42 anos, licenciou-se em Economia mas preferiu dedicar-se à moda
Nuno Ferreira Santos

Uma questão de números

Não é fácil ser-se escolhido pelas marcas. “Há sempre uma pressão para ter mais seguidores”, admite Cláudia. “Por muito que as marcas digam que não é uma questão de números, que é uma aposta nas pessoas… Para mim, isto é treta e música para o ouvido de alguns. A maioria das marcas continua a querer saber do número de likes, das visualizações, do número de seguidores. O que não está muito correcto, porque há pessoas que compram seguidores.”

É fácil encontrar sites com serviços para aumentar o número de seguidores. São cerca de três euros para cem novos seguidores, 40 euros para cinco mil. Em grande parte dos casos, não são humanos. Muitos são programas de computador – conhecidos como bots – que não comentam o conteúdo, nem deixam likes. E as empresas começam a reparar.

“Já há formas para determinar se os seguidores de um influenciador são fraudulentos”, explica Maddie Raedts, fundadora da Imagency, uma agência internacional, que também trabalha com a actriz portuguesa Vanessa Martins, que tem mais de 446 mil seguidores. “É importante ver o rácio de interacção e o número de seguidores. Se um influenciador tem quatro milhões de seguidores, mas apenas 50 comentários, é sinal de que algo não está bem.” Recentemente, a multinacional Unilever – dona de marcas como a Dove, a Knorr e a Olá, entre muitas outras – também cortou relações com os utilizadores populares nas redes sociais que pagavam para ter mais seguidores. 

A fama não surge da noite para o dia. “Estamos em 2018, eu não cresci do nada”, diz Cláudia Vitorino Almeida. “Comecei em 2009. Há alguns casos de sorte, sim, mas a maioria é esforço e dedicação e um percurso longo.”

“O mais importante é sermos genuínos”, nota por sua vez Vanessa Alfaro, que defende ser fundamental saber dizer não. “É preciso ter cuidado com marcas de suplementação e alimentação, por exemplo. Fazer a investigação, pedir a lista de ingredientes. No fundo, saber o que vamos estar a associar à nossa marca.”


Autor: PÚBLICO – Tecnologia




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