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O Google removeu mais de 837 milhões de endereços de sites de pirataria do seu motor de busca em 2018 e já investiu mais de 100 milhões de dólares a combater o fenómeno em sites como o YouTube. Mas ao mesmo tempo, um estudo global recente financiado pela tecnológica mostra que os “piratas digitais” também estão entre aqueles mais compram, legalmente, conteúdos na Internet.

Esta terça-feira, o gigante da tecnologia publicou o seu relatório anual sobre o que está a fazer para auxiliar as industrias criativas e audiovisuais a combater a pirataria online. “No mundo inteiro, a pirataria online tem estado a diminuir”, lê-se no resumo que cita um estudo da Universidade de Amesterdão, na Holanda, que nota que o fenómeno está em declínio desde 2014. 

A tendência é mais acentuada na Europa, onde a pirataria diminuiu em todos os países, excepto na Alemanha – o país, porém, está entre as nações com menos piratas digitais no mundo, juntamente com o Japão e a Indonésia. O estudo da universidade holandesa, que foi publicado este ano, baseia-se em inquéritos extensivos feitos a 35 mil pessoas com mais de 14 anos em 13 países (sete europeus, dois americanos e quatro asiáticos), e compara os resultados com os números de 2014 e de 2017.

“Investimos muito na tecnologia, ferramentas, e recursos para travar a cópida de conteúdos digitais protegidos na nossa plataforma”, escreve o Google. Só em 2017, o Google recebeu denúncias com 882 milhões de endereços de sites com conteúdo ilegal: a empresa diz que conseguiu remover 95% (54 milhões das queixas estavam incompletas ou erradas). Desde que o motor de busca começou a aceitar estas queixas, foram removidos três mil milhões de sites de pirataria do motor de busca.

A empresa nota como a Internet “permitiu às pessoas em todo o mundo criar e distribuir novas formas de arte”, mas que, para “preservar a economia criativa”, é fundamental garantir que os “artistas têm uma forma de partilhar e fazer dinheiro” e “evitar que o dinheiro fuja para quem quer piratear conteúdo.”

Apesar do destaque negativo dado pela Google à pirataria, os autores do relatório da Universidade de Amsterdão preferem focar outra conclusão: a grande maioria dos inquiridos (cerca de 95%) que acede a conteúdo pirateado online também consome muito conteúdo legalmente e, por norma, gasta até duas vezes mais dinheiro do que “não-piratas” em filmes, séries, livros e videojogos.

“Há pouca literatura a concluir com toda a certeza que a pirataria perturba vendas legais”, notam os autores. Os dados sugerem que por cada dez albuns pirateados há três vezes mais idas a concertos ou a festivais. Porém, ao mesmo tempo, o fenómeno leva a uma diminuição no número de vendas digitais e físicas de albuns. E, em média, por cada dez filmes pirateados, alguém apenas abdica de quatro idas ao cinema.

“O efeito mais positivo da pirataria é o chamado ‘efeito de amostra’: os consumidores são introduzidos a novos géneros de música, actores e géneros, e isto cria uma nova necessidade. A pirataria online também pode estimular a necessidade para produtos complementares como concertos ao vivo e mercadoria”, escrevem os investigadores. “Por outro lado, o maior efeito negativo é o de substituição: o consumidor falha em comprar um produto especifico depois de o ter visto ou consumido através de uma fonte ilegal.”

É esta parte que a Google está motivada em evitar. Além de financiar o estudo da universidade alemã para perceber a pirataria (que em 2017 tinha recebido o apoio da Comissão Europeia), a empresa acrescenta que removeu dez milhões de anúncios a promover conteúdo pirateado na sua plataforma de anúncios, e que já pagou mais de três mil milhões de dólares a artistas do YouTube (que a Google comprou em 2006), que “monetizaram” os seus vídeos através do seu sistema automático de identificação de conteúdo, conhecido como Content ID.

Com a ferramenta (em que a Google diz ter investido 100 milhões de dólares), os donos de conteúdo protegido por direitos de autor podem usar um sistema de identificação de conteúdo para gerir a republicação do seu material no YouTube. Os vídeos carregados no site são todos comparados com uma extensa base de dados de ficheiros que foi submetida pelos donos de conteúdos. E são estes que decidem o que acontece quando o sistema encontra conteúdo igual ao seu. Podem exigir que seja removido, receber dinheiro de anúncios colocados nesses vídeos, ou apenas seguir o número de visualizações e gostos desses vídeos.

Muitas vezes, porém, a pirataria online – especialmente, feita por amadores – começa com uma pesquisa no Google por livros, filmes, séries, ou jogos de computador digitais gratuitos. Mas o Google diz que não pode transferir a ferramenta do YouTube para o Google. “Um sistema desse tipo é pouco funcional e desnecessário. Um dos problemas é que algo pode ser ilegal num contexto e legal noutro”, lê-se no relatório de 2018 da Google. “Não temos uma cópia de cada ficheiro de media publicado online para filtrar o que não é legal.” 

A conclusão vem numa altura em que a União Europeia está mais perto de criar novas regras para os conteúdos em plataformas como o Google, o YouTube e o Facebook. Para a tecnológica, o combate à pirataria não passa apenas por bloquear o acesso a conteúdo protegido por direitos de autor, mas por criar alternativas legais fáceis para consumir conteúdo digital. O Netflix, o Spotify e o YouTube Music (da Google) estão entre os exemplos mencionados. Segundo a Google, só com “inovação e parcerias” é que se consegue lutar bem contra a pirataria.


Autor: PÚBLICO – Tecnologia




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