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À saída do autocarro não há tempo para esticar as pernas, perceber onde se acabou de chegar. “Terroristas souberam que um grupo da diocese do Porto, de Paços de Ferreira, estava a chegar ao campo de refugiados”, grita o professor António Madureira. “Só temos uma estratégia. Vamos tentar entrar em grupos de quatro para nos protegermos. Protejam-se uns aos outros!”


Ouvem-se alguns “Anda cá” ou “Vai tu à frente”, entre risos e gritos. Depois, é correr e passar por baixo de um camuflado lutando contra uma mistura de pó e fumo, enquanto se ouvem bombas a deflagrar a toda a volta. Ainda sem tempo para respirar, soldados gritam: “Homens para a esquerda, mulheres para a direita”. Em fila. Todos passam pela revista, braços abertos, militares a sério, armas ao ombro. Segue-se o registo, um carimbo e uma pulseira chegam para se poder entrar neste “campo de refugiados”.

Ao virar da esquina, o cenário não podia ser mais diferente. O espaço destinado aos exercícios dos soldados está ocupado por pontos de diversão sem fim, matraquilhos humanos, o jogo da corda, balizas para marcar golos, uma série de insufláveis onde se pode lutar dentro de um fato gigante ou saltar, noutro há um touro mecânico, acolá joga-se uma variação da tradicional petanca.

“Durante aquela primeira meia hora nem olharam para os telemóveis, o que é tão raro”, comentará mais tarde Fernando Moita, coordenador do departamento do ensino religioso escolar no Secretariado Nacional de Educação Cristã (SNEC).

“Isto tem de ter um bocadinho de tudo, momentos de diversão e, aqui e ali, outros mais tranquilos, com mensagem”, tinha-nos dito a professora Dulce Couto, de Braga.

Estamos no quartel do Regimento de Artilharia nº 4 de Leiria, um dos cenários centrais do V Encontro Nacional de Alunos do Ensino Secundário de Educação Moral e Religiosa Católica. Entre sexta-feira e sábado, estiveram aqui 1300 alunos e 115 professores, vindos de 70 escolas e de 16 dioceses diferentes, do Algarve a Vilar Formoso.

“(Des)abrigo-me Contigo!” foi o tema escolhido. O mote, uma frase do Papa: “Não quero uma igreja tranquila. Quero uma igreja missionária”. Podiam ser outras com Francisco, que tanto tem pedido que se olhe para os mais vulneráveis e que na primeira vez que saiu de Roma foi a Lampedusa, a ilha italiana onde tantos chegam ou morrem a tentar chegar, em fuga de guerras ou da fome e em busca de um recomeço.

Como é que esse objectivo pode ser cumprido? Por exemplo, simulando em diferentes momentos ao longo de mais de 24 horas o que é sentir-se refugiado. Como é que isso se consegue quando se juntam 1300 miúdos do 10º ao 12º ano? Pode ser pedindo-lhes que tragam o mínimo, um farnel, um saco-cama, distribuir sopa quente em filas ao cair da noite, partilhar com eles numa noite de muita festa um pequeno documentário sobre sírios que fugiram do seu país e estão ao longínquo Brasil.

A ideia destes encontros são os encontros em si mesmo. Claro que há o tema e esse deve ser tratado nas aulas, explica a minhota Lígia Pereira, professora que, como Dulce Couto ou António Madureira, faz parte do SNEC. Houve materiais distribuídos aos professores e os alunos foram recebendo sms. Mensagens onde se podia ler: “Sabes que há 52 milhões de refugiados no mundo?”. Mas também: “Não te esqueças da escova de dentes”.

“Não é uma oportunidade de um nem de dois, é de muitos. E quando nos encontramos, fazemos a festa”, resume Madureira. O que o professor considera fundamental “é educar para a dimensão espiritual”, e isso, como ele próprio, mestre de cerimónias da noite, vai provar, não tem nada de aborrecido ou ortodoxo.

Coragem para conhecer
Cátia e Inês, de 16 anos, vieram de Albergaria, em Aveiro. Estão no 10.º ano. “Os mais velhos contaram que é um convívio fixe, que se fazem experiências diferentes”, diz Inês. Cátia, que confessa ter-se assustado à entrada no quartel, também veio para “conhecer um lugar novo”.

Outro motivo para estar aqui, diz Inês, é “conhecer pessoas novas”. “Ter coragem para conhecer pessoas novas”, corrige Cátia, sorriso fácil mas tímido, como a amiga. Deixar a casa em Albergaria e ousar fazer algo diferente, com tanta gente nova à volta. Com as devidas distâncias, é algo que todos os refugiados têm de fazer.

Um grupo de rapazes dos 16 aos 18, quase todos do 11.º ano, um do 12.º, da secundária Mouzinho da Silveira em Portalegre, está encostado na conversa junto aos matraquilhos humanos. O que é que esperam levar daqui? “Uma experiência enriquecedora”, responde Alexandre, 16 anos. Os outros riem e ele, mãos nos bolsos, a olhar para baixo e a sorrir, insiste: “É verdade”.





Autor: Publico.pt – Educação




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