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Oito anos após o lançamento em papel, o primeiro (e único) dicionário de língua gestual portuguesa (LGP) passa a estar disponível para consulta online gratuita. A partir desta quinta-feira, 15 de Novembro, é possível pesquisar no site da Infopédia por cerca de 5300 palavras portuguesas e receber de volta a tradução para LGP.

Um exemplo: pesquisando por “olá”, surge um pequeno vídeo demonstrativo onde se vê um intérprete de LGP a dizer primeiro a palavra, passando depois a gestualizá-la — acenando com a mão direita, o mesmo gesto do “adeus” — e a oralizá-la — mexendo apenas os lábios, sem produzir som. Os vídeos são acompanhados por uma descrição escrita do gesto e por uma imagem que mostra a configuração correcta das mãos.


O dicionário online funciona assim

O dicionário é da autoria de Ana Bela Baltazar, psicóloga, intérprete e professora de LGP. “Eu pensei que depois de 2010 surgissem mais, mas até agora ainda não”, comenta, ao telefone com o P3. “Demorei quatro anos a fazê-lo. É um projecto muito ambicioso.” 

A iniciativa de o adaptar para o formato online partiu da Porto Editora, a mesma que em 2010 editou o primeiro guia de aprendizagem (30 euros) com quase 1200 páginas, acompanhado por um CD, que incluía 15 mil imagens e vídeos — os mesmos que agora podem ser consultadas na Infopédia, um serviço online da editora portuense que, com este, passa a disponibilizar 29 dicionários em 11 línguas.

Para a autora, as mais de 5300 entradas escolhidas devido ao “uso mais frequente pela comunidade surda” e pela “existência de gestos correspondentes directos” já são “significativas”, mas ainda não “suficientes”. Por isso, já falou com a editora sobre a possibilidade de o dicionário poder vir a ser “aumentado”. Até porque, explica, “sendo a língua gestual uma língua está em constante desenvolvimento e também sofre alterações”.

O guia serve um duplo objectivo. Além de poder interessar a pessoas que queiram aprender ou tirar dúvidas quanto à língua gestual portuguesa — umas das línguas oficiais portuguesas reconhecida na Constituição da República desde 1997 e cujo dia nacional se celebra nesta quinta-feira, 15 de Novembro —, “o grande objectivo é também enriquecer o vocabulário e o conhecimento da língua portuguesa” junto dos membros da comunidade surda que “têm algumas dificuldades em interpretá-la escrita”, uma vez que “existem palavras na LGP que não existem na língua portuguesa”, e vice-versa. “São línguas diferentes, com regras gramaticais diferentes e por isso transpor de uma para a outra traz algumas dificuldades que pegar num dicionário somente de língua portuguesa não resolve”, acredita a intérprete que trabalha, entre outros sítios, na RTP e é directora técnica da Associação de Surdos do Porto.


“A língua gestual exige outros parâmetros que não só o gesto em si, a palavra”, alerta. Engloba uma base de cinco critérios: configuração de mão, movimento, expressão não-manual, localização e orientação. “Eu posso saber que aquela palavra se faz de determinada maneira mas eu tenho de pôr um pouco de mim. Tenho de pôr expressão.” E isso são “competências desenvolvidas” e que “ainda não podem ser substituídas por computadores”. “Uma máquina não consegue substituir a sensação que eu passo a traduzir um poema, uma música alegre, uma música triste. E, portanto, há uma parte muito importante da mensagem que se perde, por aí.

Até agora, conta, a tradução tem sido bem recebida. “Disseram-me, ainda hoje: ‘Agora vou conseguir perceber aquela palavra que não conhecia, porque tem a explicação toda na minha língua, a língua gestual.” Para Ana Bela Baltazar, o lançamento do dicionário é sinónimo do lançamento de uma outra questão tantas vezes esquecida: “a da (falta de) comunicação” entre dois mundos, um deles que abarca cerca de 120 mil pessoas com algum grau de perda auditiva. “É importante também para pôr as pessoas a reflectir. Acaba por ser uma ferramenta para também falarmos disto”.


Autor: PÚBLICO – Educação




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