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Uma jovem de 16 anos da Malásia, que esta semana publicou uma sondagem do Instagram a perguntar se devia morrer ou continuar a viver, suicidou-se depois de a maioria das respostas começarem a votar pela primeira opção.

As autoridades locais, no estado de Sarawak, estão a investigar o caso e a morte da jovem deu origem a um debate nacional sobre o poder das redes sociais.

Ramkarpal Singh, um advogado e membro parlamentar do estado de Penang, na Malásia, argumenta que os utilizadores que votaram a favor contribuíram para a morte da jovem. “Há várias questões que surgem com este incidente. Será que a jovem estaria viva hoje se a maioria dos ‘cidadãos da net’, na conta de Instagram da jovem, a tivessem desencorajado a acabar com a sua própria vida?”, escreveu num comunicado sobre o tema. “Apelo a que as autoridades, em particular o Ministério das Comunicações e Multimédia, a investigar as redes sociais das vítimas e as circunstâncias que levaram à sua morte, para prevenir abusos futuros das redes sociais em circunstâncias parecidas”.

Singh lembra o caso da norte-americana Michelle Carter, de 20 anos, que em 2017 foi condenada a dois anos e meio de prisão por homicídio involuntário, por um tribunal do estado do Massachussetts, EUA, por ter incentivado o namorado, Conrad Roy, a cometer suicídio. No caso de Carter, porém, a jovem foi condenada depois de surgirem provas de que tinha trocado mensagens de telefone com Roy durante mais de 40 minutos enquanto este cometia suicídio por intoxicação com monóxido de carbono no interior de um carro, e que ordenou ao namorado “volta para dentro” quando este saiu do veículo.

“Não estou a sugerir que o incidente [da jovem que se suicidou na Malásia] é idêntico ao caso Carter”, clarificou Singh na menagem. “Mas deve haver mais investigação para perceber exactamente o que é que aconteceu.”

Há anos que a Organização Mundial de Saúde também tem alertado sobre casos em que a Internet e as redes sociais dão uma “ideia glamorosa” do suicídio.

“Há uma crescente preocupação sobre o papel suplementar que a Internet e os media desempenham na comunicação de casos de suicídio”, lê-se num relatório de 2014 da OMS. “[Na Internet] as pessoas podem transmitir prontamente actos suicidas sem censura e informações que podem ser facilmente acedidas.” Ao mesmo tempo, a organização lembra que a Internet também pode ter um papel na prevenção do suicídio.

Em comunicado, a porta-voz do Instagram na região da Ásia-Pacífico, Ching Yee Wong, deu os pêsames à família e disse que a empresa está consciente de que o Instagram tem uma “profunda responsabilidade para fazer os seus utilizadores sentirem-se seguros e apoiados”.

No último ano, o Instagram tem tentado reduzir a partilha de conteúdo explícito sobre suicídio e automutilação.

Em Fevereiro, a aplicação de partilha de imagens anunciou que ia começar a desfocar publicações sobre actos de automutilação com um aviso que alerta para o “conteúdo sensível” da imagem nítida. Na altura, o responsável do Instagram, Adam Mosseri, notou que estas situações não têm uma resposta fácil. “Como é que encontramos o equilíbrio entre ajudar as pessoas que querem pedir ajuda e proteger a comunidade?”

Os esforços da aplicação surgiram depois do suicídio da adolescente britânica Molly Russell, em 2017. Os pais da jovem, que tinha 14 anos quando acabou com a própria vida, acreditam que a morte da adolescente foi causada pela exposição contínua a imagens sobre suicídio no Instagram.

Desde 2017, o Facebook (que é dono do Instagram) também utiliza tecnologia para detectar padrões problemáticos nos comentários das pessoas e enviar-lhes mensagens com informação sobre organizações de apoio.

Sobre o caso recente na Malásia, Ching Yee Wong, do Instagram, apelou ainda a que todos os utilizadores “usem as ferramentas de denúncia do Instagram para contactar serviços de emergência quando detectam comportamento que coloque em risco a segurança das pessoas.” A rede social nota ainda que a sondagem (que a certa altura terá mostrado 69% de votos para a jovem morrer), acabou com 88% dos utilizadores a votar para a jovem continuar a viver. Para as autoridades do país, porém, a votação poderá ter mudado depois de notícias acerca da morte.

Mais do que o foco nas redes sociais, para o ministro da Juventude e Desporto da Malásia, Syed Saddiq, o caso mostra que é preciso mais discussão sobre a saúde mental no país. Numa mensagem no Twitter, Saddiq pede que se comece uma “discussão nacional” sobre o tema. “Estou genuinamente preocupado com a saúde mental da nossa juventude”, escreveu.


Autor: PÚBLICO – Tecnologia




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