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Onde está a felicidade e o bem-estar? Está em ter políticas que revelem uma preocupação com a vida pessoal e profissional dos cidadãos, responde a ex-ministra Maria Manuel Leitão Marques. Está em ter cidades mais humanas, mais próximas da natureza, mais criativas, propõe Charles Landry, o especialista britânico em cidades. Está na construção de uma paz sustentável, defende Laura Chinchilla, ex-Presidente da Costa Rica. Está em inquirir os cidadãos sobre o que querem, como se sentem e descobrir que se sentem sós, aponta Silvia Manclossi, responsável do Instituto Nacional de Estatística do Reino Unido. 

Estas e outras respostas foram dadas durante o encontro H20, promovido pela World Happiness Summit (Wohasu na sigla inglesa) e pela FreeBalance, uma empresa de software para ajudar países em situação de pós-guerra a reequilibrar a sua economia e a diminuir a corrupção. A Universidade de Lisboa foi escolhida para este encontro por ter uma cátedra de Educação para a Paz Global Sustentável da UNESCO, coordenada por Helena Marujo, uma especialista em Psicologia Positiva, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Marcaram presença, em Lisboa, representantes governamentais de cerca de 20 países.

A ex-ministra da Presidência e da Modernização Administrativa – que assinou a declaração conjunta da Coligação Global para a Felicidade, o ano passado, no Dubai, tornando Portugal um dos seis países pioneiros numa aliança da qual já fazem parte duas dezenas de estados – defende que cabe à administração pública ser “um exemplo” para o sector privado. É esse o compromisso do poder central, que se traduz em incentivos nas áreas da educação, cuidados, transportes e saúde, acrescenta. Mas é preciso saber mais sobre como vivem os portugueses para encontrar outras propostas, avança.

Conhecer melhor os seus cidadãos tem sido a aposta do Reino Unido desde 2010, revela Silvia Manclossi, directora da divisão de Qualidade de Vida, Sustentabilidade e Desigualdades do Instituto Nacional de Estatísticas britânico. “A nossa preocupação é o que podemos fazer mais para que os nossos dados sejam úteis ao poder político”, refere ao PÚBLICO. Também Alejandro Adler, director da rede das Nações Unidas para a ciência do bem-estar e desenvolvimento de políticas sustentáveis, sublinha a importância de medir a felicidade e o bem-estar das populações e como as grandes organizações como a OCDE já têm em conta este dois factores para propor mudanças políticas. 

Por exemplo, desde Janeiro de 2018 que o Reino Unido tem um Ministério da Solidão – “o único da Europa”, sublinha Manclossi – porque a solidão revelou-se um problema nacional. Surpreendentemente não tanto entre os mais velhos, mas entre as crianças e os jovens. “Recomendamos medidas para combater a solidão. As crianças e os jovens sentem-se sozinhos em períodos de mudança de escola ou quando entram no ensino superior; também sentem solidão por motivos familiares. Embora continue a ser um estigma, é interessante verificar que se tornou mais aceitável falar sobre esta questão”, congratula-se a responsável, acrescentando que as redes sociais podem ser usadas para combater a solidão, mas também para a agudizar quando, por exemplo, os jovens descobrem que não foram convidados para uma festa.

Os inquéritos e sondagens que a sua divisão tem realizado servem também para perceber que no que diz respeito ao bem-estar, o Reino Unido está a meio da tabela dos países europeus. “Progredimos em termos económicos, mas mais pode ser feito pela qualidade de vida [dos britânicos]”, informa. Se, por um lado, há algum optimismo em termos económicos, por outro, este não se reflecte em relação ao futuro por causa “da incerteza em relação ao Brexit”. 

Quem não está a meio da tabela, mas é “número 1” entre os países mais felizes do mundo é a Costa Rica, com pouco mais de 4,5 milhões de habitantes. A ex-Presidente Laura Chinchilla (2010-2014) explica que a preocupação com o bem-estar remonta há 200 anos e à independência – o que distingue este estado de outros da América Latina é o seu primeiro governante ter sido um professor e não um general, diz. “Oferecer às pessoas vidas felizes não é acidental”, declara à plateia.

Por exemplo, um sector chave de investimento é a educação – 7,4% do PIB é para o ensino público e os governantes fazem gala em investir sempre mais nesta área, informa Chinchilla. O país não tem exército – uma fonte de despesa, de “violação dos direitos humanos” e de “guerras imaginárias” em tantos estados, critica. “Esta foi uma decisão visionária que nos trouxe paz”, declara, suscitando aplausos na sala.

Outros sectores que não são esquecidos são a saúde, a segurança social e o ambiente. Aliás, a Costa Rica está já a ser um precursor no que à sustentabilidade diz respeito: um terço do território está sob regime de protecção ambiental, é o terceiro país mais verde do mundo, 100% da electricidade é de origem de energia renováveis e até 2020 quer ser um país livre de carbono. Esta semana, o Governo anunciou que até 2050 os combustíveis fósseis deixarão de ser usados. Na região, há países que são produtores, como a Venezuela, mas a Costa Rica prefere assentar a sua economia em inovação e no ecoturismo, refere a ex-governante, que não esquece a igualdade de género para se ser feliz. “Não seremos um mundo feliz se metade da população mundial vê os seus direitos violados. A felicidade não é um conceito abstracto, mas concreto na vida dos cidadãos. Não há outro objectivo tão importante”, conclui.

Com o desafio de cada vez mais gente viver nas cidades – populações que se deslocam do interior para o litoral, como na China, ou as de refugiados que chegam às grandes cidades europeias ou norte-americanas – há que repensá-las para que sejam locais de felicidade e bem-estar, defende Charles Landry, conselheiro internacional especializado no futuro das cidades.

É essencial ter infra-estruturas “mais humanas”, de maneira a “evitar vivermos em sítios que criam desespero, geram violência ou que potenciem problemas de saúde mental”, refere. À primeira vista poderá parecer que é mais caro investir em cidades melhor construídas, com espaços de lazer e de cultura, “mas não a longo prazo”, assegura.


Autor: PÚBLICO – Educação




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