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A preocupação com a protecção dos dados digitais e o impacto da inteligência artificial nos trabalhadores estão entre as principais preocupações de várias empresas portuguesas a investir na área.

A conclusão é do relatório Inteligência Artificial na Europa, apresentado esta terça-feira, em Lisboa. Foi encomendado pela Microsoft à consultoria Ernst & Young para perceber as estratégias das empresas para incorporar esta tecnologia a nível nacional. Baseia-se em inquéritos, entrevistas e estudos de caso de 277 empresas europeias, incluindo 22 em Portugal. 

“Foi interessante perceber com as respostas que as empresas no nosso país dão uma prioridade ligeiramente maior à inteligência artificial do que a média europeia”, disse Paula Panarra, a directora geral da Microsoft Portugal, na apresentação do estudo focado nas empresas portuguesas. Em Portugal, 64% das empresas inquiridas acreditam que a inteligência artificial vai ter um impacto significativo no seu sector de negócios (é um valor 27 pontos percentuais acima da média europeia), mas apenas 9% consideram a área uma prioridade de topo e 45% das empresas nacionais não iniciaram ainda qualquer piloto na área (a média europeia é 29%).

A nova regulação dos dados digitais está entre as grandes preocupações das empresas portuguesas no estudo, que inclui a EDP, Hospital da Luz, Salsa, Galp, Impresa, Sonae (dona do PÚBLICO) e Liga Portugal. Mais de 55% das empresas refere este ponto.

É uma inquietação partilhada pelos restantes países europeus considerados no relatório. Com o novo Regulamento Geral para a Protecção de Dados (RGPD), que entrou em vigor no final de Maio, é possível alguém pedir a uma empresa para revelar todos os dados que tem sobre si, apagar esses dados, e rever algumas decisões feitas por programas informáticos. O objectivo é proteger os dados pessoais dos cidadãos da União Europeia. As sanções previstas no RGPD chegam aos 20 milhões de euros, ou 4% do volume de negócios anual de uma empresa.

Para a Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Maria Fernanda Rollo, o tratamento de dados na era digital é uma preocupação transversal à sociedade europeia. “A massificação da informação é brutal. Neste momento, os dados são uma das preocupações que todos devíamos ter”, disse Rollo na apresentação do estudo. “Todos sabemos que os dados vão ser o petróleo do futuro.”

Outra das grandes barreiras identificadas pelas empresas portuguesas foi o impacto do desenvolvimento da inteligência artificial nos trabalhadores. “O problema não é aquela ideia mais falada de que as empresas vão ter de substituir os empregados por máquinas, mas o impacto ao nível da cadeia hierárquica de trabalho e cultura”, notou a directora geral da Microsoft. “É preciso apoiar os trabalhadores actuais na adopção de novas tecnologias e em novas formações.”

Para Panarra, a “conexão mais interessante” do estudo foi a percepção que as empresas têm de que é preciso investir em competências de humanidades e de inteligência emocional. “Vê-se uma correlação entre as empresas que dizem ter forte cultura de inteligência emocional e as que mais dizem investir em inteligência artificial”, diz a directora geral, que vê alianças entre várias empresas como um factor cada vez mais importante. 

Apesar do atraso à média europeia quanto ao desenvolvimento de projectos-piloto, 91% das empresas inquiridas estão confiantes que a tecnologia pode optimizar as suas operações no dia-a-dia e cerca de 77% esperam que a inteligência artificial seja a chave para envolver mais os clientes (por exemplo, com sistemas de mensagens que simulam uma conversa natural entre duas pessoas).

Para Panarra, mostrar às empresas que os erros fazem parte do progresso é um factor determinante para atrair mais empresas para a área: “É impossível gerar inovação dentro de organizações se mantivermos culturas estanques. É preciso ter culturas em que errar é permitido e a noção de que para fazer avançar a tecnologia é preciso existir uma combinação entre tecnologia e cultura humana”, disse Panarra. “Não se pode desenvolver tecnologia, só por desenvolver tecnologia. Os benefícios para o ser humano têm de estar no centro.”


Autor: PÚBLICO – Tecnologia




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